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OS DISCÍPULOS EM ÉFESO

O segundo incidente incomum está descrito era Atos 19:1-7. Paulo
iniciara a terceira das suas famosas viagens missionárias e chegou em
Éfeso. Ali ele encontrou uma dúzia de homens que, a julgar pela descrição que Lucas faz deles, nem parecem ter sido cristãos. É verdade que eles são chamados de "discípulos" (v. 1), mas isto não precisa significar mais do que discípulos professos, assim como se diz do mago
Simão que ele "abraçou a fé" (8:13), apesar do contexto mostrar que ele só tinha dito crer.

Comentando uma outra passagem da Escritura, Charles Hodge, o
erudito de Princeton, do século passado, escreveu: "A Escritura sempre
fala das pessoas de acordo com o que elas afirmam de si; com isso
chama de crentes os que dizem crer, e de cristãos os que confessam
Cristo".

Paulo perguntou àqueles homens em Éfeso se tinham recebido
o Espírito quando "creram" (v. 2). Isto mostra pelo menos que ele sabia
que eles diziam serem crentes. Mas também dá a impressão de que, por
alguma razão, ele duvidava da veracidade da sua fé, senão de forma
alguma teria feito a pergunta. Já vimos que ele é consistente era ensinar
que o Espírito é concedido aos que crêem. Como então, ele poderia ter
feito esta pergunta, a não ser que algo o fizesse suspeitar de que a vida
cristã deles não era real, bem como sua profissão de fé?

Os acontecimentos mostraram que sua suspeita tinha fundamento.
Podemos verificar as seguintes constatações: a) Em resposta à sua
pergunta se eles tinham recebido o Espírito, não disseram um simples
"sim" ou "não", nem mesmo um "não sei" admirado, mas "nem mesmo
ouvimos que existe Espírito Santo" (v. 2); b) Então Pauto imediatamente
perguntou-lhes sobre seu batismo (v. 3), porque o batismo na água é em
nome da Trindade (Mat. 28:19) e, como veremos, dramatiza, representa
o batismo no Espírito. Seu raciocínio era simples: como poderia ter-lhes
sido ministrado o batismo cristão, se eles nunca tinham ouvido falar no
Espírito Santo? Ele estava correto. Eles não tinham sido balizados; c) O
batismo que eles tinham recebido era o de João Batista, provavelmente
em resultado do ensino incompleto, de Apolo, que havia visitado Éfeso
recentemente (18.24-26).

Então, o que Paulo fez? Ele não procedeu a algum ensino mais
elevado ou completo; ele votou completamente ao princípio, à essência do evangelho. Ele lhes explicou que aquele que viria, em quem João
Batista dissera que cressem, na verdade era Jesus (v.4); d) Depois, Paulo
os batizou "em o nome do Senhor Jesus" e lhes impôs as mãos,
conseqüência de que "veio sobre eles o Espírito Santo", acompanhado de
sinais (línguas e profecia), como evidência visível e audível.
Atualmente alguns mestres usam esta história para basear seu ponto
de vista de que na experiência cristã normal o dom ou batismo do
Espírito é uma segunda experiência, subseqüente, depois da conversão.
Entretanto, a história na verdade não pode ser usada neste sentido.
Naturalmente não estou negando que estes homens receberam o Espírito
quando Paulo os batizou e lhes impôs as mãos. A pergunta é: será que
eles eram cristãos antes disto? Vimos que, em certo sentido, eles diziam
ser "discípulos".
Mas quem afirmaria seriamente que pessoas que nunca ouviram
falar do Espírito Santo, nem foram batizadas no nome de Jesus, nem
mesmo aparentemente criam em Jesus, são discípulos cristãos
verdadeiros? Certamente ninguém. Se eles eram discípulos de alguém,
então o eram de Apolo e João Batista. Não eram cristãos claramente
convertido. Com certeza, eles não podem ser considerados cristãos
típicos nos dias de hoje.
Outros expositores chamam a atenção para a seqüência de eventos:
fé em Jesus, batismo em nome de Jesus, imposição de mãos por Paulo,
vinda do Espírito Santo. Estes enfatizam que o Espírito veio sobre os
efésios, não só depois de terem crido, mas também depois de terem sido
batizados e recebido a imposição de mãos. Realmente foi assim; mas eu,
pessoalmente, não creio que a ordem tem muita importância. Para mim,
o que realmente importa é que todos os quatro elementos estão unidos e
não podem ser separados. Eles eram partes distintas de uma única
iniciação em Cristo, feita com batismo e imposição de mãos
(exteriormente), e com a fé e o dom do Espírito (interiormente).

TRECHO DO LIVRO "BATISMO E PLENITUDE DO ESPÍRITO SANTO" JONH STOTT PÁGINAS 27-29

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RACIONALIDADE E FÉ

Algumas das conseqüências de lançar a fé contra a racionalidade em linhas que não
refletem a perspectiva bíblica se podem enunciar nos termos seguintes.
A primeira conseqüência de colocar-se o Cristianismo no andar superior diz respeito à
moral. Surge a questão de como estabelecer-se um relacionamento de um Cris tianismo no
andar superior para com a esfera da moral na vida cotidiana. A resposta simples é que tal
não é possível. Como vimos, não há categorias no andar superior; portanto, não há
maneira de provê-lo com qualquer espécie de categorias! Em conseqüência o que
realmente define o chamado "ato cristão" hoje é simplesmente o que o generalizado
consenso da igreja ou o dominante conceito da sociedade admite como desejável em
determinado momento. Não se pode ter verdadeira moral no mundo real uma vez feita
essa dissociação. O que nos resta, em tais circunstâncias, é um formulário de normas
éticas inteiramente relativas.
A segunda conseqüência dessa dissociação é que não se tem uma base adequada para o
direito, para a lei. O sistema legal da Reforma era, todo ele, calcado no fato de que Deus
revelara algo real na própria essência das coisas comuns da vida. Há no antigo prédio do
Supremo Tribuna de Lausanne, na Suíça, um lindo quadro pintado por Paul Robert. É
intitulado A Justiça Instruindo os Juizes. Na parte fronteira desse avantajado mural se exi-
be não pouco litígio e contenda - a esposa contra o marido, o arquiteto contra o
construtor, e assim por diante. Como devem os juizes proceder para julgar as causas em
disputa? Esta é a maneira como exercemos o juízo em um país Reformado, diz Paul
Robert. Pintou a Justiça com a espada apontando para um livro sobre o qual se lêem
estas palavras: "A Lei de Deus". Para o homem da Reforma havia uma base para a lei,
para o direito. O homem moderno não apenas repudiou a teologia cristã, mas também
alijou a possibilidade do que nossos ances trais esposavam como base para a moral e para
o direito. Outra conseqüência é que tal rejeição põe por terra a solução que se propõe ao
problema do mal. A resposta que lhe dá o Cristianismo se alicerça na Queda concebida
como ocorrência histórica, no tempo e no espaço, real e completa. O erro de Tomás de
Aquino foi a noção de uma Queda incompleta. A verdadeira posição cristã, entretanto, é
que, no espaço e no tempo e na história, houve um homem não programado que fez uma
escolha, rebelando-se realmente contra Deus. No momento em que se rejeita esta
solução, não há como fugir à chocante afirmação de Baudelaire: "Se há um Deus, é-o o
Diabo", ou à não menos extravagante conclusão de Archibald MacLeish cm sua peça
teatral J. B.: "Se Ele é Deus, não pode ser bom; se é bom, não pode ser Deus". À parte da
resposta do Cristianismo de que Deus fez um ser humano revestido de significado em uma
história com significado, o mal resultando da revolta, primeiro de Satanás, depois do
homem, no âmbito histórico do tempo e do espaço, nenhuma outra solução subsiste
senão aceitar, com lágrimas, a aberrante conclusão de Ikiudelaire. Se a histórica solução cristã é rejeitada, o máximo que se pode fazer é saltar para o andar superior o proclamar,
contra toda a razão, que Deus é bom. Observe-se que se aceitamos a dualidade, julgando
que dessa forma evitamos entrar em conflito com a cultura moderna e com o consenso do
pensamento, estamos embalados em pura ilusão, pois quando avançamos uns poucos
passos verificamos que nos achamos no mesmo ponto em que eles estão.
A quarta conseqüência de relegar o Cristianismo ao andar superior é que assim
sacrificamos nossa possibilidade de evangelizar a verdadeira gente do século vinte no
âmbito de seu próprio pensamento. O homem moderno anseia por outra resposta que a
de sua própria perdição. Não aceitou a Linha de Desespero e a necessária dicotomia
porque o desejasse. Aceitou-as porque, com base no desenvolvimento natural de seus
pressupostos racionalistas, não podia deixar de fazê-lo. Pode falar com empáfia por vezes,
todavia, após tudo, nada mais é do que desespero.
Tem, pois, o Cristianismo a oportunidade de falar claramente quanto ao fato de que a
resposta que oferece encerra exatamente aquilo de que se desesperou o homem
moderno — a unidade de pensamento. É uma resposta una que abarca a vida como um
todo. E verdade que o homem terá de renunciar a seu arraigado racionalismo, entretanto,
com base no que se pode discutir, tem ele plena possibilidade de recobrar a racionalidade.
Pode-se perceber, agora, por que insisti com tanta ênfase,] anteriormente, na diferença
entre racionalismo e racionalidade. Esta perdeu-a o homem moderno. Pode, porém,
reavê-la mercê de uma resposta unificada à vida com base no que se abre à verificação e
à discussão.
Lembrem-se, portanto, os cristãos, de que se deixarmo-nos apanhar na armadilha contra a
qual venho avisando, o que teremos feito é entre outras coisas, pormo-nos na posição em
que, na realidade, estaremos enunciando em terminologia evangélica simplesmente o que o
incrédulo está dizendo com seus próprios termos. A fim de nos defrontarmos com o
homem moderno em perspectiva correta e em bases justas, forçoso nos é remover a
dicotomia. Necessário se faz ouvir a Escritura a falar a real verdade tanto a respeito do
próprio Deus como da área em que a Bíblia tange a história e o cosmos. É isto que
nossos predecessores na Reforma apreenderam de maneira tão cabal.
Na dimensão da eternidade, já o vimos, estamos completamente separados de Deus; na
linha da personalidade, porém, fomos feitos à Sua imagem. Portanto, Deus nos pode falar
e dizer acerca de Si Mesmo — não de forma exaustiva mas de maneira real, não plena mas
verdadeiramente. (Afinal de contas, criaturas finitas que somos, nada poderíamos
conhecer em forma exaustiva). Mas Deus nos tem falado também acerca de coisas perti -
nentes ao reino do finito, ao elemento criado. Deus tem-nos falado coisas verdadeiras
acerca do cosmos e da história. Logo, não estamos flutuando a esmo.
Não se pode, porém, obter esta resposta a menos que se nutra o conceito da Bíblia
sustentado pela Reforma. Não é questão de revelar-se Deus em Jesus Cristo sim-
plesmente, pois que não há nisto suficiente conteúdo, se o separamos das Escrituras.
Nesse caso, faz-se apenas outro emblema sem conteúdo, pois tudo o que sabemos
quanto ao que foi essa revelação de Cristo provém das Escrituras. O próprio Jesus não fez
distinção entre Sua autoridade e a autoridade das Escrituras. Operou baseado na unidade
de Sua própria autoridade e do conteúdo das Escrituras.

TRECHO DO LIVRO "A MORTE DA RAZÃO" FRANCIS SCHAEFFER Páginas 38,39

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Criado Para Pensar

CRIADO PARA PENSAR
Começo com a criação. Deus fez o homem à sua própria imagem, e
um dos aspectos mais nobres da semelhança de Deus no homem é a
capacidade de pensar. É verdade que todas as criaturas infra-humanas têm
cérebro, alguns rudimentos, outros mais desenvolvidos. O Sr. W.S.
Anthony, do Instituto de Psicologia Experimental de Oxford, apresentou
um trabalho perante a Associação Britânica, em setembro de 1957, no qual
descreveu algumas experiências com ratos. Ele pôs obstáculos às entradas
que continham alimento e água, frustrando-lhes as tentativas de encontrar
o caminho naquele labirinto. Descobriu que, diante do labirinto mais
complicado, seus ratos demonstraram o que ele denominou de “dúvidas
intelectual primitiva”! Isso bem pode ser verdade. Todavia, mesmo que
algumas criaturas tenham dúvidas, somente o homem tem o que a Bíblia
chama de “entendimento”.
A Escritura assegura e evidencia isso a partir do momento da criação
do homem. Em Gênesis 2 e 3 vemos Deus comunicando-se com o homem
de um modo segundo o qual Ele não se comunica com os animais. Ele
espera que o homem colabore consigo, consciente e inteligentemente, no
cultivo e na conservação do jardim em que o colocara , e que saiba
diferenciar- tanto racional como moralmente - entre o que lhe é permitido
e o que lhe proibiu de fazer. Ainda mais, Deus chama o homem para dar
nomes aos animais, simbolizando assim o senhorio que lhe dera sobre
essas criaturas. E Deus cria a mulher de maneira tal que o homem
imediatamente a reconhece como companheira idônea de sua vida, e então
irrompe espontaneamente primeiro poema de amor da História!

Esta racionalidade básica do homem, por criação, é admitida em toda
a Escritura. Na realidade, sobre esse fato se apóia o argumento normal que,
sendo o homem diferente dos animais, ele deve comportar-se também
diferentemente. “Não sejais como o cavalo ou a mula, sem entendimento”.
Em conseqüência, o homem é escarnecido e repreendido quando o seu
comportamento é mais bestial que humano (“eu estava embrutecido e
ignorante; era como um irracional à tua presença”), e quando a conduta de
animais é mais humana que a de alguns homens. Pois que às vezes os animais de fato superam os homens. As formigas são mais trabalhadoras e
mais previdentes que o folgadão. Os bois e jumentos muitas vezes dão a
seus donos um reconhecimento mais obediente do que o povo Deus ao
Senhor. E os pássaros migratórios são melhores no arrependimento, já que
quando partem em migração sempre retornam, enquanto que muitos
homens que se desviam não conseguem voltar.
O tema é claro e desafiador. Há muitas semelhanças entre o homem e
os animais. Mas os animais foram criados para se conduzirem por instinto,
enquanto que os homens (apesar dos “behavioristas”), por escolha racional.
Dessa forma os homens, ao deixarem de agir racionalmente, procedendo
por instinto à semelhança dos animais, estão se contradizendo,
contradizendo sua criação e sua diferenciação como seres humanos, e
devem Ter vergonha de si próprios.
A sociedade secular, por esse mundo a fora, concorda com o ensino da Escritura acerca da racionalidade básica do homem, constituída em sua
criação e não de todo destruída na Queda. Os propagandistas podem dirigir
os seus apelos promocionais aos nossos apetites mais baixos, mas eles não
têm nenhuma dúvida de que temos a capacidade de distinguir entre
produtos: de fato, muitas vezes até mesmo chegam a lisonjear o
consumidor que discrimina. Quando sai a primeira notícia de um crime,
geralmente ela vem com a frase “o motivo ainda não foi descoberto”.
Pressupõe-se, como se vê , que mesmo a ação criminosa tem uma
motivação, seja ela qual for. E quando nossa conduta é mais emocional do
que racional, ainda assim insistimos em “racionalizá-la”. O próprio
processo chamado “racionalização” é significativo. Indica que o homem de
tal forma se constituiu num ser racional que quando não tem razões para a
sua conduta ele tem que inventar alguma para se satisfazer.

TRECHO DO LIVRO "CRER É TAMBÉM PENSAR" Jonh Stott Páginas 7,8